50LAYERS
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A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e a Estrutura de Missão para as Comemorações do quinquagésimo aniversário da Revolução de 25 de Abril de 1974 celebraram um protocolo que levou à abertura do concurso: "O 25 de Abril e a democracia portuguesa". O projeto 50LAYERS - 50 camadas de uma revolução: a Arqueologia Pré-histórica depois do 25 de abril de 1974 (2023.10940.25ABR), submetido pelo Centro da Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ), através da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foi proposto para financiamento. A Faculdade de Letras da Universidade do Porto e o Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património – Universidade de Coimbra (CEAACP-UC) são instituições colaborativas.
Objetivos
O projeto 50Layers visa abordar as diferentes camadas da arqueologia pré-histórica antes e depois do 25 de abril, ao nível da dimensão política das ideias, conceitos e metodologias que enquadram a prática arqueológica. O objetivo é enfatizar a dimensão política da investigação pré-histórica, demonstrando como alguns procedimentos e orientações teórico-metodológicas, aparentemente isentos de orientação política, podem comportar silenciosos preconceitos que reproduzem dinâmicas de violência e dinâmicas de exclusão, comprometendo a consolidação dos valores democráticos.
Questões e linhas de atuação
O projeto 50Layers pretende trabalhar as seguintes questões: 1) Como evoluíram as narrativas sobre pré-história desde o 25 de abril?; 2) De que forma os/as pré-historiadores/as, de forma consciente, enquadram e apresentam o seu trabalho como algo com significado político, alterando os limites e tendo as possibilidades ditadas por diferentes regimes políticos e contextos socioculturais?; 3) Como pode a Arqueologia pré-histórica contribuir ativamente para abordar desafios contemporâneos em democracia, e de que modo podem arqueólogos/as demonstrar a responsabilidade cívica na sua investigação?
Para responder a estas questões, o projeto encontra-se alicerçado em três pilares:
- Exploração de técnicas de ciência de dados (Inteligência Artificial) para analisar narrativas escritas e rastrear transformações do discurso em pré-história. Pretende-se, pois, reconhecer padrões que os diferentes autores partilham e questionar o seu significado epistemológico e político, tentando compreender continuidades e descontinuidades entre os períodos da ditadura e do pós 25 de abril.
- Realização de um conjunto de quatro workshops centrados nos seguintes tópicos: a educação; a igualdade de género; a descolonização; as perspetivas de futuro. Com estas reuniões temáticas tentamos ir ao encontro de um conjunto de questões que a comunidade arqueológica em Portugal tem em mãos, pretendendo refletir acerca das dificuldades e oportunidades de um conjunto de desafios do mundo contemporâneo.
- Participação da comunidade arqueológica no projeto. Esta participação consistirá na resposta a um inquérito e num convite à apresentação de um objeto que, do ponto de vista pessoal, relacione a arqueologia e democracia. Tais objetos constituirão a base de trabalho de um catálogo e uma exposição a realizar no Museu do Côa.
Equipa
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O projeto 50Layers incluí uma equipa de doze investigadores e cinco consultores, pertencendo a quatro diferentes Universidades (Faculdade de Letras do Porto, Faculdade de Letras de Coimbra, Faculdade de Letras de Lisboa e Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve), ao Politécnico de Lisboa (Escola Superior de Comunicação) e instituições como o Museu do Côa e o Museu Nacional de Arqueologia. A maioria dos membros desta equipa nasceu depois de 1974. Contudo, cresceram nos anos 1980, suficientemente perto para haver uma perceção social das diferenças entre o antes e o depois da Revolução de Abril. A maioria dos consultores são de uma geração que experienciou a revolução com envolvimento político (e/ou liderança estudantil). Com esta diversidade de perceções, o 50Layers busca construir um conhecimento mais rico e abrangente sobre a Revolução de Abril, promovendo um diálogo entre gerações que visa demonstrar que os desafios da democracia estão sempre em curso. Que o reconhecimento da importância e a salvaguarda das memórias dos valores democráticos conquistado por abril inspire as novas gerações – e novas revoluções – é também a nossa ambição!
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Organização de Workshops
Educação, Arqueologia, Democracia
O primeiro workshop decorreu no dia 7 de março de 2025, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), subordinado ao tema da Educação. Este tema foi escolhido para discussão na FLUP porque tanto a primeira licenciatura, como o primeiro mestrado em Arqueologia foram aqui criados. Neste workshop foi discutida a formação de arqueólogos, em Portugal, no contexto dos desafios profissionais e sociais do mundo contemporâneo. Como principais conclusões desde workshop apontamos: 1) concordância geral acerca do enorme incremento das oportunidades de qualificação académica profissional em Arqueologia após o 25 de Abril; 2) constatação da pluralidade – existem muitas formas de ser arqueólogo/a; 3) a importância do estabelecimento de redes e da organização coletiva na profissão; 4) o papel essencial da formação contínua e informal ao longo da vida; e 5) A crescente adoção de currículos académicos flexíveis, ajustados às novas realidades do setor.
Descolonização, Arqueologia, Democracia
No dia 9 de janeiro de 2026, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), teve lugar o segundo workshop. Nesta reunião científica foi discutido o conceito de descolonização, questionando a sua definição como um processo formal, estritamente associado ao fim do império e à formação dos novos estados daí decorrente. O processo colonial, multissecular, gerou um modo de estar no mundo muito particular que reconhecemos hoje no extrativismo económico, na hegemonia de um modelo de produção de conhecimento centrado na Europa, ou na hierarquização de grupos sociais em função de ideias raciais, étnicos, classistas, ou de género. Tudo isto, que podemos denominar colonialidade, influenciou a nossa visão sobre o passado e a forma como nos relacionamos na prática da arqueologia. De que forma podemos pensar a descolonização da arqueologia portuguesa no quadro do ideário de Abril? De que forma é que a ideia de descolonização nos ajuda a pensar sobre as questões centrais da arqueologia hoje? Foram questões que ancoraram a discussão. Para além da apresentação de exemplos de trabalho em comunidade (Serpa e Mértola), gerou-se um saudável debate em torno de algumas questões, por exemplo: 1) a questão da «objetificação» dos outros e dos próprios corpos, com enfâse na questão da exposição e re-enterramento (ou não) de restos biológicos humanos; 2) o carácter extrativista e de acumulação de objetos que ainda caracteriza a maioria das intervenções arqueológicas; e 3) uma abordagem de temas fundamentalmente eurocêntrica perpetuando relações de desigualdade racial, étnica e social.
Pluralidade, Arqueologia, Democracia
O terceiro workshop, decorreu na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) a 7 de abril de 2026, explorando a Pluralidade como um princípio fundador da prática arqueológica. A Revolução de Abril trouxe consigo a promessa de uma sociedade mais aberta e mais justa, empenhada na diminuição das desigualdades socioeconómicas, raciais e de género. Mas de que modo tal se refletiu na forma como fazemos arqueologia? Atualmente, quem participa na construção do conhecimento sobre o passado? Que narrativas são privilegiadas e quais permanecem silenciadas? Cinquenta anos depois, a pluralidade enfrenta novos desafios. As redes sociais e a inteligência artificial tendem a definir o tom do diálogo, a promover um discurso único, homogeneizando opiniões e reduzindo a complexidade do debate. Este fenómeno afeta também a arqueologia, condicionando a forma como comunicamos, investigamos e imaginamos o passado. Que espaço resta para a diversidade das vozes, dos métodos e das interpretações num contexto que favorece o consenso algorítmico? Os participantes neste workshop reconheceram, nos últimos 52 anos, importantes avanços na representatividade socioeconómica e de género de quem faz arqueologia. Contudo, saiu reforçado o alerta sobre as persistentes desigualdades raciais, a invisibilização de comunidades e identidades, e para os novos desafios colocados pelas redes sociais e pela inteligência artificial à diversidade de vozes, métodos e narrativas sobre o passado.
Futuro, Arqueologia, Democracia
O último workshop do projeto decorreu dia 4 de julho no Museu do Côa e tentámos que os participantes invertessem o sentido do olhar: do balanço para a projeção, do que fomos para o que queremos ser. Estruturado em três painéis: 1) Divulgação: Comunicação, participação e cidadania; 2) Gestão: Instituições, património e profissão, e 3) Investigação: Conhecimento, inovação e compromisso; permitiu o debate e a troca de ideias entre os presentes. A crise climática e ambiental reconfigura o próprio objeto de estudo e as condições da sua preservação. A inteligência artificial e a digitalização massiva alteram a forma como produzimos, validamos e divulgamos conhecimento. As lógicas de mercado e a precariedade laboral pressionam a profissão. As expectativas das comunidades e dos públicos exigem novas formas de participação e de partilha de autoridade narrativa. E o quadro institucional - universidades, museus, administração do património, empresas - enfrenta desafios estruturais que obrigam a repensar competências, papéis e responsabilidades. Cinquenta e dois anos depois de Abril, importa perguntar: que arqueologia queremos construir para as próximas décadas? Que compromissos assumimos perante o conhecimento, perante a sociedade e perante as gerações futuras?
Exposição colaborativa e catálogo
A exposição 50 Camadas de uma Revolução. Abril em coisas, vozes e memórias de todos os dias, reúne uma seleção de 50 objetos, do total de 115 propostas enviadas por arqueólogos que responderam ao nosso desafio, apresentando diferentes ligações entre o percurso individual em arqueologia e as ideias de liberdade e revolução. A totalidade das propostas consta de um catálogo digital, disponível em acesso aberto: http://hdl.handle.net/10400.5/119648
A exposição inaugurou dia 4 de julho e estará patente na sala Auroque do Museu do Côa. Pode ser visitada das 9h às 18h até dia 28 de agosto.
Redes Sociais
Publicações
Gameiro, C. & Gomes, S. (2024) – Apresentação do projeto 50Layers – 50 camadas de uma revolução: a Arqueologia pré-histórica depois do 25 de abril de 1974? Al-Madan, 2ª série, 27, p. 44-47.
Gomes. S.; Gameiro, C.; Silva, T. (2025) – 50Layers. 50 camadas de uma revolução, Kairós, 15. DOI:https://doi.org/10.14195/2184-7193_15_3
Gomes, S & Gameiro, C (eds) 2026, 50 camadas de uma revolução: Abril em coisas, vozes e memórias de todos os dias. Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras, Lisboa. http://hdl.handle.net/10400.5/119648
Gomes. S.; Gameiro, C.; Silva, T. (2025) – 50Layers. 50 camadas de uma revolução, Kairós, 15. DOI:https://doi.org/10.14195/2184-7193_15_3
Gomes, S & Gameiro, C (eds) 2026, 50 camadas de uma revolução: Abril em coisas, vozes e memórias de todos os dias. Universidade de Lisboa. Faculdade de Letras, Lisboa. http://hdl.handle.net/10400.5/119648
O projeto 50Layers, com referência 2023.10940.25Abr (https://doi.org/10.54499/2023.10940.25abr), é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P. através do Orçamento de Estado